Igrejas, governos e particulares: a história do trabalho voluntário

O trabalho voluntário é tão antigo quanto as primeiras civilizações. Esta prática remonta ao momento em as tribos coletivistas e igualitárias se expandiram e deram origem a cidades e a sociedades desiguais e complexas.

 

A origem do trabalho voluntário

Nas primeiras civilizações, as ações sociais amparavam indivíduos carentes ou incapacitados. O código moral egípcio, por exemplo, foi um dos primeiros a levantar a bandeira da Justiça Social. Suas leis, que se misturavam ao discurso religioso, encorajavam as pessoas a pequenas ações voluntárias. Na Grécia, viajantes eram acolhidos nas casas dos ricos, recebendo abrigo e comida.  Já na Roma pré-cristã, acreditava-se que o imperador deveria suprir as necessidades dos súditos e mantê-los felizes. O mesmo esperava-se dos cidadãos bem nascidos, membros da aristocracia.

 

O trabalho voluntário e as religiões

 

O voluntariado ganhou nova dimensão com as religiões monoteístas. Os sacerdotes judeus foram os primeiros, dentre as organizações modernas, a promoverem a filantropia. Eles entendiam que os pobres tinham direitos e os ricos deveres.

 

O cristianismo deu impulso à assistência social sob forma de caridade. Com o fim da perseguição ao Catolicismo em Roma (313 d.c.) as doações para a igreja passaram a ser legais, provendo recursos aos fundos de apoio aos desamparados. Na Idade Média o catolicismo praticamente monopolizou o voluntariado, sempre com a concepção da caridade enquanto redentora dos pecados.

 

Com o enfraquecimento do poder católico, principalmente a partir do século XVI, começaram iniciativas da sociedade civil e dos Estados pelo combate à pobreza. Em 1526, Juan Luis Vives (foto), pedagogo espanhol, convenceu o governo de Bruxelas a criar uma repartição de assistência aos pobres, iniciativa inédita que atraiu críticas da Igreja, que considerava essa missão como sua. Em 1765, a cidade protestante de Hamburgo proibiu a mendicância. Para auxiliar os indigentes, dividiu a cidade em regiões e criou uma repartição central que seria responsável por abrigar, alimentar, dar treinamento profissional e subsidiar os desempregados até que arrumassem alguma ocupação.

 

Século XX: a profissionalização do voluntariado

O surgimento das sociedades urbano-industriais no século XIX fez crescer a pobreza e o tema passou a ser estudado cientificamente, sem a interferência da igreja, com busca de diagnósticos e tratamentos. Em 1869 surgiu na Inglaterra o Charity Organization Society (COS), organização de trabalho voluntário que acreditava em um auxílio mais amplo do que a simples caridade.

 

Na primeira metade do século XX os governos, principalmente na Europa, criaram Estados de Bem-Estar Social que assumiram as funções assistenciais. Hospitais, escolas e instituições foram criados para combater a pobreza das grandes cidades e amparar a população carente.

 

Na década de 1970, com a crise econômica mundial, observou-se tendência inversa. Governos cortaram gastos, abrindo espaço para que o voluntariado voltasse a prover necessidades básicas não supridas pelo Estado. Data desta época a popularização das Organizações Não Governamentais (ONGs), instituições civis criadas na década de 50. Ocupando espaços deixados por governos e empresas, as organizações do terceiro setor não têm fins lucrativos e buscam potencializar o impacto social a partir de trabalho voluntário e de doações.

 

Em paralelo, cresceu no mundo o conceito de Responsabilidade Social Empresarisal (RSE). Pressionadas pela opinião pública, empresas tiveram que assumir responsabilidades que iam além de seus investidores e consumidores diretos. Muitas passaram a fazer doações sistemáticas e até financiaram fundações de assistência, boa parte delas beneficiadas por incentivos fiscais do governo.

 

O trabalho voluntário do futuro

O conceito de trabalho voluntário vem ganhando força e adeptos, ao mesmo tempo em que há descrença crescente no papel do Estado como provedor das necessidades básicas dos cidadãos. Há, em paralelo, o crescimento do conceito de empreendedorismo social e de filantropia. O primeiro busca capitalizar os proveitos da atitude empreendedora em prol do social. O segundo, diz respeito ao incremento das doações pessoais, mercado que nos EUA já movimenta US$ 300 bilhões por ano e que vem crescendo a cada ano no Brasil. Ambas tendências prometem crescer e causar bastante impacto.